Durante anos, a lógica do streaming parecia bastante simples: você escolhia uma plataforma, assinava e assistia ao catálogo disponível ali. Netflix de um lado, Prime Video do outro, Disney+ em outro aplicativo, Max em mais um. O problema é que, conforme o número de serviços aumentou, aquela promessa de liberdade começou a produzir um efeito curioso: para ter acesso a tudo, o consumidor precisava administrar uma verdadeira coleção de assinaturas.
Agora, a Netflix pode estar pensando em mudar justamente essa lógica.
Segundo informações divulgadas pelo The New York Times e repercutidas pelo Tecnoblog, a empresa estaria avaliando a possibilidade de colocar serviços de streaming concorrentes dentro do próprio aplicativo. Entre os nomes citados estão Peacock e Fox One. Ainda não existem acordos concretos fechados, mas a ideia aproximaria a Netflix de um modelo que a Amazon já explora há anos com o Prime Video.
E aqui está a parte mais interessante: a Netflix pode estar deixando de pensar apenas como um streaming e começando a pensar como uma plataforma de distribuição de entretenimento.
O problema não é mais encontrar o que assistir. É saber onde assistir.
Imagine a cena.
Você quer assistir a uma série. Abre a Netflix. Não está lá. Vai para o Prime Video. Também não. Abre o Disney+. Nada. Depois lembra que talvez esteja no Max. Pesquisa. Descobre que o conteúdo está disponível, mas precisa de outra assinatura.
A experiência que deveria ser simples — sentar no sofá e assistir alguma coisa — virou uma espécie de caça ao tesouro digital.
Esse fenômeno é consequência direta da fragmentação do mercado. Em vez de um grande serviço concentrando boa parte do conteúdo, dezenas de plataformas passaram a disputar o mesmo consumidor com catálogos próprios, produções exclusivas e diferentes modelos de assinatura.
No Brasil, inclusive, o cenário está bastante competitivo. Dados da JustWatch referentes ao segundo trimestre de 2026 colocaram o Prime Video na liderança do ranking de interesse dos usuários, com 21%, seguido pelo Disney+, com 19%, e pela Netflix, com 18%. É importante destacar que o levantamento mede interações na plataforma da JustWatch e não representa participação de mercado ou número de assinantes.
Esse contexto ajuda a explicar por que a possível mudança da Netflix é tão estratégica.
A Amazon já entendeu esse jogo
O Prime Video não funciona apenas como um catálogo de produções da Amazon.
A plataforma permite que usuários adicionem assinaturas de serviços externos diretamente dentro do aplicativo. Nos Estados Unidos, a Amazon informa que há mais de 100 opções de assinaturas adicionais, incluindo serviços como Apple TV, HBO Max, Paramount+, Peacock, STARZ e outros. O catálogo disponível varia de acordo com o país.
Na prática, a Amazon transformou o Prime Video em uma espécie de shopping center do streaming.
Você entra por uma porta, encontra diferentes serviços, escolhe quais quer assinar e administra tudo em um mesmo ambiente. Não precisa necessariamente ficar pulando entre aplicativos para descobrir o que assistir ou administrar cada assinatura separadamente.
Essa estratégia tem uma vantagem enorme: reduz o atrito.
E, no mundo digital, reduzir atrito pode valer tanto quanto oferecer um produto melhor.
A própria Amazon descreve o Prime Video como um destino de entretenimento que reúne conteúdo próprio, serviços adicionais, canais gratuitos, aluguel, compra e transmissões ao vivo em uma única experiência.
É justamente esse modelo que a Netflix pode estar começando a observar com mais atenção.
Mas por que uma empresa colocaria concorrentes dentro de casa?
À primeira vista, parece contraditório.
Por que a Netflix permitiria que alguém assistisse a conteúdos de outra empresa dentro do seu aplicativo?
Porque o negócio pode deixar de ser apenas vender conteúdo e passar a ser também controlar a relação com o consumidor.
Se a Netflix se transforma no lugar onde o usuário descobre filmes, séries e outros serviços, ela pode continuar ocupando uma posição central na jornada de entretenimento mesmo quando o conteúdo não é produzido por ela.
É uma mudança semelhante ao que aconteceu em outros mercados digitais.
O celular não precisa ser fabricado pela mesma empresa que criou cada aplicativo instalado nele. Um marketplace não precisa vender apenas produtos próprios. Um banco digital pode oferecer serviços de diferentes parceiros.
A lógica é simples: quando você controla a porta de entrada, não precisa necessariamente controlar tudo o que existe dentro da casa.
Para uma empresa como a Netflix, isso poderia significar novas fontes de receita, mais dados sobre comportamento de consumo e uma relação ainda mais frequente com seus usuários — embora os detalhes financeiros e operacionais de uma eventual parceria ainda não tenham sido definidos.
A Netflix já está pensando além da assinatura
Essa possível mudança também combina com uma transformação que a empresa vem fazendo em outras frentes.
A Netflix deixou de ser apenas uma plataforma de filmes e séries. A empresa vem ampliando sua atuação em publicidade, eventos ao vivo, podcasts em vídeo e experiências associadas às suas produções.
Em maio de 2026, a Netflix informou que seu plano com anúncios já alcançava mais de 250 milhões de usuários ativos mensais globalmente, enquanto no Brasil a empresa registrava mais de 35 milhões de pessoas ativas mensais. A companhia também vem expandindo sua tecnologia de publicidade e novas formas de conexão entre marcas e audiência.
Ou seja, a plataforma está construindo um ecossistema.
E ecossistemas têm uma característica importante: eles são mais valiosos quanto mais coisas o usuário consegue fazer sem precisar sair deles.
Esse pode ser o verdadeiro motivo por trás da possível aproximação com serviços concorrentes.
O streaming está virando uma plataforma?
Talvez essa seja a pergunta mais interessante.
No início da era do streaming, o diferencial era ter um catálogo grande. Depois, passou a ser produzir conteúdo exclusivo. Agora, com dezenas de serviços competindo por atenção e dinheiro, o próximo diferencial pode ser facilitar a vida do consumidor.
Em vez de perguntar “qual streaming eu preciso assinar?”, o usuário poderia simplesmente abrir um aplicativo e encontrar praticamente tudo em um único lugar.
Isso também muda o papel das plataformas.
A Netflix poderia deixar de ser apenas uma empresa que produz e distribui conteúdo para se tornar uma espécie de hub de entretenimento. O Prime Video já caminha nessa direção. E outros grandes players também começam a explorar modelos de agregação e parceria.
No fundo, existe uma disputa muito maior acontecendo: quem será o aplicativo que o consumidor abre primeiro?
Porque, quando a concorrência deixa de ser apenas por conteúdo e passa a ser pela atenção, estar na tela inicial pode valer muito.
Menos aplicativos, mais conveniência — mas com uma pergunta
Para o consumidor, a ideia parece ótima. Menos aplicativos, menos senhas, menos buscas e uma experiência mais integrada.
Mas existe um ponto que merece atenção: concentração.
Quanto mais serviços ficam reunidos dentro de poucas plataformas, maior passa a ser o poder dessas empresas sobre descoberta, recomendação, publicidade e distribuição de conteúdo.
O mesmo algoritmo que ajuda você a encontrar uma série pode também decidir qual serviço merece aparecer primeiro. E, nesse cenário, a disputa não acontece apenas entre filmes e séries. Ela acontece pela visibilidade dentro da própria plataforma.
É uma mudança silenciosa, mas enorme.
Talvez o futuro do streaming não seja ter uma assinatura para cada catálogo. Talvez seja ter um grande aplicativo funcionando como uma central, enquanto diferentes empresas disputam espaço dentro dele.
Se isso acontecer, a pergunta deixará de ser “Netflix ou Prime Video?”.
Talvez seja:
quem vai controlar a porta de entrada para tudo o que assistimos?
E essa pode ser uma disputa muito maior do que escolher onde assistir à próxima série.
Assinatura
Produção: Lamar Comunicação
Concepção: João Victor
Texto: Jarvis, inteligência artificial da Lamar Comunicação
Revisão e edição: Ketlyn

