Existe uma cena curiosa acontecendo nas redes sociais. Você abre o TikTok ou o Instagram esperando encontrar vídeos rápidos, tendências, memes e mais alguns segundos de entretenimento e, de repente, aparece alguém fazendo crochê. Depois, uma pessoa moldando cerâmica. Mais adiante, alguém pintando, costurando, fazendo scrapbook, encadernando um caderno ou simplesmente preparando alguma coisa com as próprias mãos.
A princípio, parece só mais uma tendência.
Mas existe algo maior acontecendo por trás desse retorno ao artesanal. Em uma geração que cresceu conectada, cercada por notificações, algoritmos e estímulos instantâneos, atividades manuais estão ganhando espaço justamente porque fazem o caminho contrário: exigem tempo, repetição, atenção e presença.
A Geração Z não descobriu o crochê.
Ela descobriu uma nova relação com o tempo.
O estranho retorno dos “hobbies de vó”
Durante muito tempo, crochê, tricô, bordado e costura foram associados a outras gerações. Eram atividades que remetiam à casa da avó, às tardes tranquilas e aos objetos feitos lentamente porque simplesmente não existia outra maneira de fazê-los.
Agora, esses mesmos hobbies aparecem nas mãos de jovens que cresceram com um smartphone no bolso.
E a contradição é justamente o que torna o movimento interessante.
Pesquisas e levantamentos recentes mostram o crescimento do interesse da Geração Z por hobbies analógicos e atividades que permitem criar algo concreto. O relatório de tendências de hobbies do Pinterest de 2026, por exemplo, aponta que 51% da Gen Z entrevistada afirma que ter um hobby contribui para sua felicidade. A plataforma também identifica uma forte procura por atividades táteis, criativas e capazes de produzir resultados no mundo físico.
Não se trata apenas de nostalgia. Afinal, boa parte dessa geração sequer viveu a época que está tentando “resgatar”.
É uma nostalgia curiosa por um mundo que, para muitos deles, só existe por referências culturais.
Vinil, câmeras analógicas, livros físicos, cerâmica, crochê e outras práticas passaram a representar algo maior do que seus próprios objetos: a possibilidade de experimentar uma vida menos instantânea.
Quando o processo importa mais que o resultado
Existe uma diferença fundamental entre consumir conteúdo e criar alguma coisa.
Ao assistir a um vídeo de quinze segundos, o cérebro recebe uma sequência rápida de estímulos e imediatamente pode passar para o próximo. Depois outro. E outro. A experiência é construída em velocidade.
No trabalho manual, acontece quase o contrário.
Um projeto de crochê não termina em quinze segundos. Uma peça de cerâmica não aparece pronta. Um desenho não pode ser simplesmente regenerado com outro comando. Uma costura exige repetição. Um bordado exige concentração. Uma pintura pode exigir horas.
E é justamente essa demora que parece ter adquirido valor.
Uma reportagem do Estadão sobre o fenômeno mostrou jovens buscando colagens, bordados, velas, cerâmica e diários como maneiras de se afastar um pouco das telas, focar no presente e ocupar o tempo com atividades que proporcionam satisfação.
A lógica é quase subversiva em uma cultura construída sobre a velocidade.
Não fazer mais rápido. Fazer mais devagar.
Não produzir para postar imediatamente.
Produzir porque o processo, por si só, já vale a pena.
A ironia: o TikTok também ensina a ficar offline
Talvez a parte mais curiosa dessa história esteja aqui.
A Geração Z descobre atividades offline… online.
O tutorial de crochê está no TikTok. A técnica de cerâmica aparece no Instagram. O passo a passo do bordado está no YouTube. As referências para um scrapbook estão no Pinterest.
Ou seja: as redes sociais não desapareceram da equação. Elas mudaram de papel.
Em vez de serem apenas espaços de consumo, também funcionam como portas de entrada para experiências fora da tela.
Uma pesquisa da Samsung, citada pelo Meio & Mensagem, já havia identificado que jovens da Geração Z utilizavam plataformas como TikTok, Instagram e YouTube para aprender novos hobbies. O conteúdo digital, nesse caso, não termina no aplicativo: ele leva o usuário para uma atividade concreta.
É quase como se a internet dissesse:
“Olha isso aqui.”
E a pessoa respondesse:
“Agora vou fazer.”
Essa mudança é importante porque revela que a relação da Gen Z com a tecnologia não é simplesmente de rejeição.
É de negociação.
Ela quer estar conectada, mas também quer momentos de desconexão. Quer aprender pela internet, mas aplicar o conhecimento no mundo físico. Quer compartilhar o que faz, mas também experimentar algo que não dependa necessariamente de likes.
O feito à mão ganhou um novo valor
Existe ainda outra razão para entender por que o artesanal conversa tão bem com o comportamento contemporâneo: ele oferece algo que a produção digital em escala tem dificuldade de reproduzir.
A marca do indivíduo.
Uma peça feita à mão carrega pequenas diferenças. Um ponto pode ficar mais apertado. Uma pintura pode ter uma imperfeição. Uma peça de cerâmica pode apresentar uma textura inesperada.
E, em um ambiente digital cada vez mais dominado por imagens altamente produzidas, essa imperfeição pode funcionar como sinal de autenticidade.
A CNN Brasil relacionou o retorno de hobbies analógicos entre jovens a uma busca por experiências longe das telas e também à nostalgia da Geração Z por referências de períodos menos tecnológicos. A reportagem destaca ainda como o feito à mão pode representar autenticidade, pertencimento e uma maneira de se reconectar com o próprio corpo.
É uma inversão interessante.
Durante anos, a tecnologia foi usada para eliminar imperfeições.
Agora, algumas imperfeições estão sendo procuradas justamente porque parecem mais humanas.
O “slow” virou experiência
Talvez por isso expressões como slow living, slow content e slow craft tenham encontrado espaço no vocabulário cultural.
Não significa necessariamente viver devagar o tempo inteiro — porque isso seria praticamente impossível.
Significa criar pequenos momentos em que a lógica da velocidade deixa de comandar tudo.
É o café preparado sem pressa. O livro lido sem alternar com o celular. A receita feita do zero. O jardim cuidado. A peça de roupa consertada. O desenho que demora uma tarde inteira.
O trabalho manual entra nessa lógica porque devolve uma característica que o ambiente digital frequentemente fragmenta: continuidade.
Você começa uma coisa e permanece nela.
O Meio & Mensagem aponta justamente essa combinação entre nostalgia, bem-estar e busca por desaceleração como uma das forças por trás da popularização dos hobbies manuais. E o movimento já começa a interessar às marcas, que encontram nesses comportamentos oportunidades para criar experiências menos baseadas apenas em publicidade tradicional.
É aqui que uma tendência comportamental começa a virar oportunidade de comunicação.
Para as marcas, não basta colocar um crochê no feed
E existe um alerta importante para o mercado.
Quando uma tendência começa a crescer, aparece a tentação de transformar qualquer comportamento em estética. Se a Gen Z gosta de cerâmica, coloca-se cerâmica na campanha. Se gosta de scrapbook, aparece um scrapbook no anúncio. Se gosta de fotografia analógica, troca-se um filtro digital por uma câmera antiga.
Mas isso não significa que a marca entendeu o comportamento.
Porque o ponto não é o crochê.
O ponto é o que o crochê representa.
Representa tempo. Autonomia. Criatividade. Concentração. Personalização. Comunidade. Em alguns casos, sustentabilidade. Em outros, simplesmente prazer.
Uma marca que entende isso pode criar experiências realmente relevantes. Pode promover oficinas, incentivar criação, apoiar comunidades, desenvolver produtos personalizáveis ou simplesmente construir uma comunicação que valorize o processo em vez de vender apenas velocidade e produtividade.
É muito diferente de colocar uma agulha de crochê em uma foto porque “está na trend”.
Talvez a Gen Z não queira menos tecnologia
Talvez queira mais escolha.
Essa é uma distinção importante.
A Geração Z não está abandonando a internet. Ela continua sendo uma das gerações mais conectadas e utiliza as próprias plataformas digitais para descobrir, aprender e compartilhar seus interesses.
O que está mudando é a percepção de que estar conectado o tempo inteiro é necessariamente desejável.
Uma reportagem recente do Gshow sobre o crescimento do chamado jejum de redes sociais entre jovens mostra justamente essa busca por pausas estratégicas, redução de notificações e limites para o uso das plataformas.
E isso ajuda a explicar por que uma atividade aparentemente simples, como pintar ou costurar, pode ganhar um significado tão grande.
Porque, durante aquele período, ninguém está pedindo que você role para cima.
A atividade não precisa disputar sua atenção com cinco notificações.
Não existe um algoritmo tentando descobrir qual será o próximo estímulo.
Existe apenas você, o material e aquilo que está sendo construído.
O futuro também pode ser feito à mão
Existe uma certa ironia em tudo isso.
A mesma geração que cresceu com inteligência artificial, redes sociais e smartphones está encontrando valor em atividades que exigem ferramentas simples e tempo.
Mas talvez isso não seja um paradoxo.
Talvez seja equilíbrio.
A tecnologia resolveu uma série de problemas relacionados à velocidade. Hoje conseguimos criar, comunicar, pesquisar e produzir em uma escala que seria inimaginável algumas décadas atrás.
Mas velocidade não resolve tudo.
Às vezes, queremos justamente o contrário.
Queremos algo que demore.
Algo que tenha textura.
Algo que possa ser segurado.
Algo que carregue uma pequena imperfeição.
Algo que não precise ser publicado.
E talvez seja por isso que o artesanato esteja voltando com tanta força entre os jovens.
Não porque a Geração Z queira voltar ao passado.
Mas porque, em meio a um futuro cada vez mais acelerado, o presente virou um lugar que precisa ser escolhido.
E talvez algumas das melhores ferramentas para chegar até ele sejam justamente aquelas que sempre estiveram por perto: uma linha, uma agulha, um pincel, um pedaço de argila e duas mãos ocupadas.
No fim, a grande tendência talvez não seja o crochê.
É voltar a sentir o tempo passando.
Assinatura
Produção: Lamar Comunicação
Concepção: João Victor
Texto: Jarvis, inteligência artificial da Lamar Comunicação
Revisão e edição: Ketlyn


