Você abre o Instagram e aparece uma imagem perfeita demais para ser verdade. Um vídeo de uma pessoa fazendo algo completamente absurdo. Uma notícia com cara de notícia, mas que não parece dizer nada. Uma legenda cheia de palavras bonitas, frases genéricas e aquele estranho sentimento de que você já leu aquilo outras 37 vezes.
Você continua rolando.
E encontra mais.
Mais uma imagem. Mais um vídeo. Mais um texto. Mais uma história.
Até que chega um momento em que tudo começa a parecer igual.
Talvez você ainda não soubesse o nome disso, mas a internet já encontrou uma palavra para descrever boa parte desse fenômeno: AI Slop.
Em tradução livre, seria algo próximo de “lixo de IA”, mas a expressão vai além de simplesmente classificar um conteúdo como ruim. O termo passou a ser usado para descrever materiais produzidos com inteligência artificial em grande quantidade, geralmente com pouca revisão humana, pouca originalidade, pouca preocupação com precisão e, muitas vezes, com o único objetivo de gerar cliques, visualizações ou engajamento.
Não é coincidência que “slop” tenha sido escolhida pelo Merriam-Webster como a palavra do ano de 2025. O dicionário definiu o termo como conteúdo digital de baixa qualidade produzido, geralmente em quantidade, por meio de inteligência artificial. A escolha funciona quase como um retrato de uma internet que ganhou uma capacidade inédita de produzir conteúdo — mas ainda não descobriu como garantir que todo esse conteúdo tenha alguma coisa relevante para dizer.
Quando produzir ficou fácil demais
A grande virada provocada pela IA generativa não foi apenas fazer uma imagem bonita ou escrever um texto em poucos segundos. Foi reduzir drasticamente o custo e o tempo necessários para produzir.
Antes, criar dez vídeos exigia dez ideias, gravação, edição, roteiro, imagens, revisão e uma boa quantidade de horas. Hoje, dependendo da ferramenta e do processo, é possível gerar dezenas de variações em uma fração desse tempo.
E é justamente aí que aparece o problema.
Quando produzir deixa de ser a parte difícil, a internet pode ficar cheia de coisas produzidas simplesmente porque é possível produzir.
É o equivalente digital de uma fábrica que descobriu como fabricar milhões de produtos por dia, mas esqueceu de perguntar se alguém realmente precisava deles.
O AI Slop nasce dessa combinação: ferramentas cada vez mais acessíveis, produção em escala, algoritmos que premiam atenção e pessoas dispostas a transformar qualquer tendência em uma máquina de cliques.
É por isso que o fenômeno aparece tanto nas redes sociais. Imagens surreais, vídeos estranhos, histórias inventadas, personagens inexistentes, notícias falsas com aparência convincente e até livros ou textos produzidos em massa passaram a circular com facilidade. O conteúdo pode até parecer impressionante nos primeiros segundos. O problema aparece quando você pergunta: isso tem alguma coisa para dizer?
Nem tudo que é feito por IA é AI Slop
Aqui está uma distinção importante — principalmente para quem trabalha com comunicação.
Usar inteligência artificial não transforma automaticamente um conteúdo em AI Slop.
Uma marca pode usar IA para gerar referências visuais, organizar informações, testar possibilidades de roteiro, criar uma primeira versão de um texto ou acelerar uma etapa da produção. Depois, alguém pode revisar, contextualizar, editar, acrescentar repertório, checar informações e tomar decisões criativas.
Isso é muito diferente de apertar um botão, publicar o primeiro resultado e seguir para o próximo.
O problema não está necessariamente na ferramenta.
Está na ausência de intenção, curadoria e responsabilidade.
Um estudo publicado em 2025 sobre “slop” em textos de IA, por exemplo, aponta justamente que não existe uma definição única e totalmente objetiva para determinar o que é ou não é slop. Os pesquisadores encontraram dimensões relacionadas a coerência, relevância e qualidade, mostrando que o julgamento envolve critérios que podem ser parcialmente subjetivos.
Em outras palavras: IA não é sinônimo de conteúdo ruim. Mas IA tornou muito mais fácil produzir conteúdo ruim em escala.
E essa diferença muda tudo.
O algoritmo adora quantidade. O público, nem sempre.
Existe ainda uma segunda camada nessa história: a economia da atenção.
Plataformas digitais precisam de conteúdo para manter seus usuários consumindo. Criadores querem alcance. Empresas querem cliques. Sites querem tráfego. E, em muitos casos, quanto mais conteúdo consegue ser produzido com menos custo, maior é a possibilidade de testar formatos e encontrar alguma coisa que viralize.
É aí que o AI Slop encontra um ambiente perfeito.
Um conteúdo pode ser estranho, exagerado ou completamente sem sentido e ainda assim funcionar durante alguns segundos. Se conseguir interromper o movimento do dedo e fazer alguém olhar, comentar ou compartilhar, já cumpriu parte de sua função.
O problema é que, quando milhões de pessoas e contas começam a fazer isso simultaneamente, o efeito deixa de ser individual.
O próprio ambiente digital muda.
Uma pesquisa publicada pela Universidade de Chicago em 2026, por exemplo, analisa justamente como as plataformas estão tentando estabelecer novas regras para conteúdos gerados por IA. O estudo destaca um caso em que uma imagem falsa criada por IA relacionada a Zendaya e Tom Holland alcançou milhões de curtidas no Instagram antes que muitas pessoas percebessem que não era real.
Isso mostra que a questão não é apenas estética.
É também informacional.
Quando qualquer pessoa consegue fabricar uma imagem convincente de um acontecimento que nunca aconteceu, a pergunta deixa de ser “isso ficou bonito?” e passa a ser “isso aconteceu mesmo?”.
E quando o conteúdo começa a ficar todo igual?
Existe outro efeito menos óbvio.
Quanto mais pessoas usam as mesmas ferramentas, os mesmos modelos e os mesmos estilos de prompt, maior pode ser a tendência à repetição.
Você provavelmente já percebeu isso em alguns textos: a mesma estrutura, as mesmas expressões, os mesmos adjetivos, a mesma maneira de começar e terminar uma ideia.
Nas imagens, acontece algo parecido. Rostos excessivamente perfeitos, iluminação cinematográfica, mãos estranhas, cenários hiper-realistas e aquela estética que parece ter saído de um catálogo de “imagem bonita gerada por IA”.
Não significa que toda imagem com essas características seja ruim.
Significa que começamos a reconhecer uma estética própria da produção automatizada.
E isso cria uma contradição interessante para a comunicação: quanto mais fácil fica produzir, mais difícil pode ficar se diferenciar.
A IA resolve o problema da quantidade.
A criatividade continua tendo que resolver o problema da relevância.
O paradoxo da IA: produzir mais pode significar dizer menos
Talvez essa seja a parte mais interessante do AI Slop.
A tecnologia nasceu, entre outras coisas, com a promessa de ampliar a capacidade humana. Só que, quando utilizada sem critério, ela também pode ampliar nossa capacidade de produzir coisas que ninguém pediu.
Um profissional pode usar IA para transformar uma boa ideia em uma campanha melhor.
Ou pode usar IA para transformar uma ideia inexistente em 50 posts antes do almoço.
A diferença está menos na inteligência da ferramenta e mais na inteligência de quem está usando.
É por isso que o debate sobre AI Slop interessa tanto à publicidade, ao jornalismo, ao entretenimento e à criação de conteúdo. Em um cenário no qual produzir ficou barato, atenção, confiança, repertório e originalidade ficam ainda mais valiosos.
E existe uma consequência importante para as marcas.
Se o público começa a perceber que determinada empresa publica conteúdo genérico, repetitivo ou claramente automatizado sem cuidado, a tecnologia que deveria tornar a comunicação mais eficiente pode acabar produzindo o efeito contrário: diminuindo a percepção de valor.
A pergunta deixa de ser “foi feito por IA?”.
Passa a ser:
“Alguém realmente pensou nisso?”
Talvez o futuro não seja menos IA. Seja menos preguiça.
A discussão sobre AI Slop não precisa virar uma guerra entre “conteúdo humano” e “conteúdo artificial”.
A tecnologia já está incorporada ao processo criativo e provavelmente continuará avançando.
O que precisa permanecer é o filtro humano.
A pessoa que pergunta se aquela informação é verdadeira. Que percebe quando uma imagem não faz sentido. Que entende o contexto de uma campanha. Que sabe que uma referência cultural não combina com determinada marca. Que corta uma frase bonita porque ela não diz absolutamente nada.
Porque a inteligência artificial pode gerar dez versões em segundos.
Mas alguém ainda precisa decidir qual delas merece existir.
Talvez essa seja a principal lição do AI Slop: em uma internet onde qualquer coisa pode ser produzida em escala, o verdadeiro diferencial deixa de ser conseguir produzir.
É conseguir escolher.
Escolher o que dizer. Escolher o que não dizer. Escolher quando usar IA. E, principalmente, escolher quando uma ideia precisa de mais humanidade — e não de mais uma geração automática.
Agora queremos saber: você já viu um conteúdo e pensou “isso tem muita cara de IA”?
Talvez você já tenha encontrado muito mais AI Slop do que imaginava.
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Produção: Lamar Comunicação
Concepção: João Victor
Texto: Jarvis, inteligência artificial da Lamar Comunicação
Revisão e edição: Ketlyn

