A pergunta “o que você quer ser quando crescer?” parece simples até o momento em que crescer significa entrar em um mercado de trabalho que muda enquanto você ainda está escolhendo o caminho. Para a Geração Z, a decisão profissional já não depende apenas de afinidade, salário ou prestígio. Também envolve uma preocupação que ganhou força com a inteligência artificial: será que a profissão escolhida ainda vai oferecer oportunidades quando chegar a hora de exercê-la?
Uma pesquisa da Thumbtack, empresa de tecnologia dos Estados Unidos, ajuda a entender esse movimento. Segundo dados divulgados pelo G1 em 1º de outubro de 2026, mais de 80% dos jovens ouvidos consideram mais difícil construir uma carreira estável hoje do que há alguns anos. Quatro em cada cinco acreditam que a inteligência artificial eliminará muitos empregos tradicionais destinados a profissionais em início de carreira. E 92% afirmam ter feito ao menos uma mudança nos planos profissionais em resposta às condições do mercado. <Cite refs={[“turn826061search3″,”turn826061search4”]} />
Esses números não significam que toda uma geração desistiu de seus sonhos para trabalhar com tecnologia. Eles apontam para algo mais interessante: os jovens estão reavaliando o que consideram uma escolha profissional segura. E, nessa conta, profissões técnicas que antes recebiam menos atenção começam a disputar espaço com carreiras tradicionalmente associadas ao sucesso.
A inteligência artificial também está mudando o significado de uma carreira segura
Durante décadas, a ideia de estabilidade esteve associada a um roteiro relativamente conhecido: estudar, conquistar um diploma, conseguir um emprego e avançar na carreira. Esse percurso nunca foi uma garantia para todo mundo, mas funcionava como referência para muitas famílias. Agora, a automação de tarefas, a popularização das ferramentas de IA e a transformação de diferentes setores colocam esse roteiro sob pressão.
O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, estima que as mudanças econômicas, tecnológicas, demográficas e ambientais podem criar 170 milhões de empregos e deslocar 92 milhões de postos de trabalho até 2030, resultando em um saldo global positivo de 78 milhões de vagas. O mesmo estudo aponta que quase 40% das habilidades exigidas no trabalho devem mudar até o fim da década. São projeções globais baseadas em dados de empregadores, não uma previsão exata para cada país ou profissão. <Cite refs={[“turn838590view1″,”turn430753search1”]} />
O dado importante não é apenas quantos empregos podem surgir ou desaparecer. É a velocidade com que as competências necessárias para ocupá-los estão mudando. Uma pessoa pode escolher uma profissão promissora hoje e descobrir, alguns anos depois, que precisa aprender novas ferramentas, assumir outras tarefas ou até mudar de especialidade. O diploma continua tendo valor, mas deixa de funcionar como ponto final da formação.
Isso também explica por que a IA desperta sentimentos contraditórios. A tecnologia pode ajudar alguém a aprender, pesquisar, desenvolver projetos e executar tarefas com mais rapidez. Ao mesmo tempo, pode automatizar parte das atividades que serviam como porta de entrada para profissionais iniciantes. Para quem está tentando conquistar o primeiro emprego, essa mudança não é uma discussão abstrata sobre o futuro: é uma dúvida sobre como conseguir experiência quando algumas das tarefas iniciais passam a ser feitas por sistemas automatizados.
Por que profissões técnicas voltaram ao radar dos jovens
A pesquisa da Thumbtack indica que quase metade dos jovens da Geração Z nos Estados Unidos está aprendendo uma profissão técnica ou considera seriamente seguir esse caminho. Entre os entrevistados interessados nessas áreas, 30% afirmaram que a própria inteligência artificial despertou seu interesse. O levantamento aponta para uma mudança na percepção de valor dessas profissões, embora não permita concluir que a mesma tendência tenha a mesma intensidade no Brasil. <Cite refs={[“turn826061search3″,”turn826061search6”]} />
O fenômeno faz sentido quando observamos o tipo de trabalho envolvido. Instalações elétricas, manutenção, construção, climatização e outros serviços especializados exigem conhecimento técnico, prática, adaptação a ambientes concretos e resolução de problemas que variam de um local para outro. A IA pode apoiar diagnósticos, planejamento, atendimento e organização de tarefas, mas isso não significa que consiga substituir, por conta própria, toda a execução física e a responsabilidade envolvida nesses serviços.
O relatório do Fórum Econômico Mundial também projeta crescimento para funções ligadas à construção, ao cuidado, à educação e a outras atividades essenciais, além de especialistas em inteligência artificial, dados, software e segurança digital. A tendência não aponta para um futuro composto apenas por programadores. Mostra um mercado em transformação, no qual diferentes tipos de trabalho podem ganhar relevância por razões distintas. <Cite refs={[“turn430753search0″,”turn430753search5”]} />
Há uma ironia nessa mudança: enquanto a tecnologia costuma receber os holofotes, algumas oportunidades podem estar em atividades que exigem presença física, habilidade manual, contato humano e capacidade de resolver imprevistos. Isso não torna uma profissão técnica automaticamente mais segura ou mais rentável. Demanda, remuneração, condições de trabalho, formação e localização continuam pesando na decisão. Mas ajuda a questionar uma ideia antiga: a de que o sucesso profissional precisa ter necessariamente uma tela, um escritório e um cargo em inglês.
O futuro profissional não será decidido apenas pela escolha do curso
A discussão sobre carreiras também precisa sair da disputa simplista entre profissões que a IA vai substituir e profissões que ela nunca conseguirá tocar. Na prática, muitas ocupações são conjuntos de tarefas. Uma ferramenta pode automatizar parte do trabalho sem eliminar toda a função, enquanto novas demandas podem surgir para quem sabe usar a tecnologia com critério.
No marketing, por exemplo, a IA pode sugerir pautas, organizar informações e produzir uma primeira versão de texto. Isso não elimina a necessidade de definir posicionamento, entender o público, verificar informações, reconhecer nuances culturais e assumir responsabilidade pelo que será publicado. Em uma área técnica, um sistema pode ajudar a identificar uma falha provável, mas a avaliação das condições reais e a execução do serviço continuam exigindo competências específicas.
Por isso, o Fórum Econômico Mundial destaca a combinação entre habilidades tecnológicas e capacidades humanas. Pensamento analítico, criatividade, colaboração, resiliência, flexibilidade e disposição para aprender aparecem ao lado de conhecimentos em IA, dados e cibersegurança entre as competências valorizadas para os próximos anos. <Cite refs={[“turn430753search0″,”turn430753search9”]} />
A consequência para os jovens é concreta: escolher uma carreira continua sendo importante, mas aprender a se atualizar também precisa fazer parte do plano. Para escolas, universidades e empresas, o desafio é semelhante. Não basta orientar estudantes a escolher uma profissão que esteja em alta; é necessário ajudá-los a desenvolver competências que possam ser aplicadas em diferentes contextos e oferecer caminhos reais de formação e entrada no mercado.
Existe ainda uma questão que os números não resolvem sozinhos. Ter acesso a cursos, equipamentos, internet, orientação profissional e oportunidades de experiência não é uma realidade igual para todos. Falar em adaptação constante sem considerar essas diferenças corre o risco de transformar uma mudança estrutural do mercado em uma responsabilidade exclusivamente individual. Não basta dizer aos jovens que precisam se preparar: também importa saber quem terá condições de fazê-lo.
Talvez a pergunta precise mudar
O interesse por profissões técnicas e a revisão dos planos de carreira mostram que os jovens estão tentando responder a um cenário incerto com novas possibilidades. Isso não significa que deixaram de querer ser médicos, artistas, professores, engenheiros ou empreendedores. Significa que a escolha está sendo atravessada por outras variáveis: a influência da IA, o custo da formação, a possibilidade de conseguir o primeiro emprego e a expectativa de construir uma vida profissional sustentável.
A melhor orientação não é escolher uma carreira apenas porque ela aparece em uma lista de profissões promissoras, nem descartá-la porque a inteligência artificial parece ameaçá-la. É entender o trabalho real por trás do nome da profissão, observar como as atividades estão mudando, buscar experiências práticas e avaliar quais competências podem acompanhar a pessoa ao longo de diferentes fases da vida.
O futuro do trabalho não exige que todo jovem adivinhe a profissão certa. Exige que tenha condições de aprender, mudar de rota e continuar encontrando espaço.
Talvez a pergunta “o que você quer ser quando crescer?” ainda faça sentido. Mas ela merece uma continuação: que tipo de problema você gostaria de resolver, que habilidades quer desenvolver e que condições precisa ter para construir esse caminho?
Para assistir a uma discussão sobre como a IA está transformando tarefas e competências profissionais, o Fórum Econômico Mundial publicou o vídeo “World in Numbers: Jobs and Tasks” no YouTube. O conteúdo complementa a leitura ao abordar a automação, o apoio da tecnologia ao trabalho humano e as mudanças nas habilidades exigidas pelo mercado.
E, para quem está escolhendo uma profissão agora, vale lembrar: uma carreira não precisa ser uma decisão imutável tomada aos 17 anos. Ela pode ser uma construção feita de escolhas, prática e aprendizado — desde que existam oportunidades para continuar avançando.
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Produção: Lamar Comunicação
Concepção: João Victor
Texto: Jarvis, inteligência artificial da Lamar Comunicação
Revisão e edição: Ketlyn

